Pareceu-me oportuno utilizar o
título do êxito dos JaFumega como mote para o que pretendo partilhar a seguir.
Este é o relato de uma aventura com mais de 20 mil quilómetros através de 5
países da América do Sul, durante 3 meses, à descoberta de muitos sabores,
cores, texturas e produtos que, aqui e ali, me fizeram exclamar tão alto quanto
os falsetes do Luís Portugal no refrão do já referido tema.
A
primeira paragem foi o Brasil, mais concretamente São Paulo. A principal razão
para esta cidade estar no mapa gastronómico mundial actualmente é Alex Atala e
o seu restaurante D.O.M., o único do Brasil com duas estrelas Michelin e
posicionado entre os 10 primeiros na lista World’s 50 Best Restaurants. Voluntariei-me
para um mês de estágio com o objectivo de conhecer os produtos da Amazónia que
Atala ajuda tão afincadamente a divulgar, os vegetais, frutas e peixes
estranhos no aspecto e sabor que nunca vimos na Europa e os costumes e forma de
encarar o acto de comer que dizem muito sobre a cultura de um país.
Na
“casa” de Alex Atala encontrei uma organização militar, um vocabulário europeu
e um palato exótico. Os anos de formação do Chef na Suíça reflectem-se nos
aventais imaculadamente brancos, nos toques
blanches imponentes no alto das muitas cabeças que fazem girar a máquina
tão pontual como um relógio de quartzo e nas técnicas escoffianas para os
muitos rotis, glaces e parfaits que veiculam os aromas da priprioca, pimenta de
cheiro ou tucupi.
Diariamente
assimilava novos nomes de coisas que nunca tinha visto com gostos que nunca
tinha sentido. Cozinhei com manteiga-de-garrafa (o ghee brasileiro), líquida à
temperatura ambiente e não inteiramente livre de sólidos do leite, com aroma
ligeiramente rançoso mas de sabor muito “guloso”. Aprendi que não gosto do
sabor do caju fresco mas que adoro o da jabuticaba, uma baga de casca grossa e
polpa ácida que tem cor de ameixa e cresce colada ao tronco da árvore. Quase me
converti à religião do açaí que, sem aditivos e por causa do taninos, é quase
impossível de provar mas, com a quantidade certa de doce de leite, bem gelado e
guarnecido de granola, serve de pequeno-almoço, lanche ou sobremesa a qualquer
hora do dia. Pasmei-me com o efeito que o jambú, uma erva amazónica, provoca ao
adormecer a boca e os lábios num primeiro “embate” para depois terminar com
notas salgadas que persistem por algum tempo. Rendi-me à versatilidade da
macaxeira, a brava e a mansa (mandioca) que se pode consumir fresca, triturar e
separar do sumo que se for deixado fermentar (se for consumido antes disso é
tóxico) dá origem ao fragrante e fresco tucupi. Do amido da mandioca pode
também fazer-se sagu, umas pérolas grandes de tapioca de textura agradavelmente
explosiva e da mandioca seca pode fazer-se farinha, seja de água ou com aspecto
de cous-cous a que se dá o nome de puba. Foi ainda no D.O.M. que vi o enorme
pirarucu, um peixe da Amazónia de carne firme e pele que se seca para usar como
lixa, e onde arrisquei provar a famosa e fotografada formiga, crocante, salgada
e limonada, que guarnece um cubo de ananás bem doce num dos amuse-bouches do
menú degustação do restaurante.
As
descobertas continuaram nas visitas a restaurantes como o Maní da Chef Helena
Rizzo. Num brilhante menú degustação, na sua grande maioria influenciado por
produtos e clássicos brasileiros, aprendi que a cachaça não serve só para
caipirinhas e pode ser usada para cozer marisco a vapor, comparei o sabor da
pupunha (palmito) enlatada com a fresca e decidi que ao natural é bem superior,
comi a melhor moqueca da minha vida e fui apresentado à taioba, uma planta de
folhas verdes muito grandes, altamente fresca, que é uma excelente alternativa
aos “verdes” do costume.
A
verdade é que nem só de fine-dining vive a cozinha brasileira. Vive de
lanchonetes e botecos. Vive de coxinha de frango ou catupiry e chopp Brahma bem
gelado. Vive de churrasco com coração de galinha e queijo-coalho e feijoada com
farofinha de banana nanica. Vive de gigantes sandes de mortadela fumada no
Mercadão, que sabem ainda melhor depois de nos perdermos pelas inúmeras bancas
cheias de cor e sabor e novidade. Se um dia voltar a São Paulo, é lá que quero
ir primeiro, para voltar a provar o cupuaçú, um primo do cacau do qual se faz
algo parecido com chocolate, a pitomba que faz lembrar uma líchia mas que sabe
a amendoim e a jaca, o gigante fruto espinhoso por fora e esponjoso por dentro
que, quando maduro, tem sabor a banana.
São
Paulo foi um excelente primeiro capítulo para o romance do meu “descobrimento”
da cozinha da América do Sul. É avassalador pensar que tudo isto se pode
encontrar numa única cidade. É impossível não tentar imaginar e salivar com o
que esconde o resto deste imenso país. No entanto, o meu rumo está orientado a
sul e a Argentina é a próxima paragem.
Texto publicado na Inter magazine ed.250 como parte de uma sequência de quatro textos a respeito de uma viagem pela América do Sul realizada em 2015.
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