Escrevo este texto um ano após ter visitado o Chile e confesso que, de todos os países que tive oportunidade de conhecer, este ficou guardado num lugar mais especial do meu coração. Ao longo das semanas que ali passei, de sul a norte, da fria Terra do Fogo ao escaldante Deserto de Atacama, da costa até às montanhas com 6000 metros de altitude, pude aperceber-me da riqueza e diversidade imensa que preenche esta longa linha de terra, banhada pelo Pacífico, no lado Oeste da América do Sul. Há muito que ouvira falar de um restaurante em Santiago do Chile que me despertou o interesse. Dizia-se do Boragó de Rudolfo Guzmán que iria dar que falar muito em breve. Enquanto as atenções se voltavam para o Perú como nova potência da gastronomia mundial, eu continuava a pesquisar sobre o trabalho levado a cabo neste projecto chileno, ainda pouco conhecido internacionalmente. Há um ano, concretizei esta intenção antiga de o visitar. N...
Na minha outra vida fui dançarino. Pratiquei Dança de Salão de competição durante cerca de 15 anos. No meio dos cha-cha-chas , rumbas e valsas houve sempre uma predilecção por outro ritmo, mais quente e agressivo, íntimo e intenso, o Tango. Bastardizado na Europa, adaptado à formalidade dos salões de baile dos púdicos europeus, nasceu na América do Sul, com raízes divididas entre a Argentina e o Uruguai. Foi, no entanto, no país de Perón e Maradona que se tornou bandeira. Graças a alguns instrumentos musicais levados pelos emigrantes, desde cedo associado às classes mais pobres, o tango clandestino dos bordéis de Buenos Aires foi crescendo em complexidade e popularidade, atraiu compositores que se tornaram celebridades e que ajudaram a difundir a sonoridade do bandoneón por todo o Mundo. Foi curioso, agora como cozinheiro, ter a oportunidade de visitar a Argentina e aperceber-me dos paralelos que se conseguem estabelecer entre a música e a cena gastronómica ...